Ultra Street Fighter Android ganhou uma implementação nativa experimental baseada na versão de Xbox 360 de Ultra Street Fighter IV. O desenvolvedor BelmanteGu apresentou o projeto publicamente em 28 de setembro de 2026, com o jogo recompilado para ARM64 e rodando em um Galaxy S23 com Adreno 740 a 60 FPS. O trabalho usa ReXGlue para recompilar o executável e um renderer Vulkan próprio, portanto não executa a CPU Xenon nem a GPU Xenos por emulação durante o caminho nativo.
O projeto ainda está em desenvolvimento e não oferece um APK público pronto para baixar. Mesmo assim, o repositório já documenta menus, filmes, seleção de personagens, lutas e controles touchscreen funcionando no Android. Além disso, o mesmo código também roda em Windows e macOS.
Ultra Street Fighter Android usa recompilação estática
A base técnica começa no arquivo Default.xex da edição de Xbox 360. O repositório oficial do Ultra Street Fighter IV Recompiled explica que o ReXGlue transforma antecipadamente o código PowerPC em C++. Depois, o projeto compila esse resultado para a arquitetura ARM64 usada pelos smartphones modernos.
Consequentemente, o telefone não precisa interpretar continuamente as instruções da CPU do Xbox 360. O runtime substitui chamadas de sistema relacionadas a arquivos, threads, memória, áudio e entrada. Essa abordagem segue a mesma linha do Rayman Origins Recompiled no Android, cuja infraestrutura serviu de base para o novo trabalho.
Ultra Street Fighter IV Recompiled em execução nativa no Galaxy S23, com controles touchscreen. Imagem: BelmanteGu / projeto oficial.
Renderer Vulkan substitui a emulação da GPU Xenos
O avanço não se limita à CPU. O desenvolvedor criou um renderer Vulkan que intercepta as chamadas Direct3D do jogo e desenha o resultado diretamente por uma API gráfica moderna. Os shaders originais passam por uma conversão antecipada com XenosRecomp, HLSL e SPIR-V.
Assim, render targets, resolves, profundidade, Scaleform e o sistema de predicated tiling do Xbox 360 são tratados pelo renderer do port. A documentação afirma explicitamente que esse caminho não emula a GPU Xenos. Por outro lado, o projeto ainda mantém trabalho em andamento para corrigir detalhes de geometria e alguns efeitos.
Essa distinção é importante. Ultra Street Fighter Android não é uma execução da versão de Windows dentro de uma camada como Winlator, nem streaming e nem uma versão comercial independente para celular. Trata-se da edição de Xbox 360 recompilada antecipadamente para código nativo e acompanhada por uma nova infraestrutura gráfica.
Tela de opções da implementação Android. O aplicativo possui launcher próprio e suporte a toque e controle físico. Imagem: BelmanteGu / projeto oficial.
Galaxy S23 alcança 60 FPS no teste do desenvolvedor
O teste documentado usa um Galaxy S23 com GPU Adreno 740. Segundo o autor, o jogo chegou a 60 FPS nesse aparelho. A documentação do repositório também registra 60 FPS no Windows com uma RTX 3050 de notebook.
Entretanto, o resultado não deve ser generalizado para qualquer telefone. O desenvolvedor testou diretamente o Galaxy S23 e afirma que ainda precisa ampliar os testes. Em comentários posteriores, ele recomendou esperar por mais otimizações quando questionado sobre aparelhos mais modestos.
O caminho Android exige ARM64, Vulkan 1.1 ou superior e descriptor indexing. A configuração de compilação usa Android API 29, equivalente ao Android 10, como plataforma mínima técnica do build atual. Além disso, o projeto não depende de shaderInt64.
O autor também implementou correções específicas para Adreno. Uma delas altera a superfície da janela para evitar problemas com o canal alpha usado pelo jogo. Outra converte na CPU formatos de vértice de 16 bits que a GPU não oferece diretamente. O pipeline cache fica salvo em disco, enquanto a reprodução de vídeos recebeu uma otimização que, segundo o repositório, tornou a decodificação cerca de 20 vezes mais rápida.
27 dos 29 cenários já passam sem defeitos visuais
O desenvolvedor automatizou lutas em todos os 29 cenários disponíveis na seleção do jogo. Na bateria documentada, 27 terminaram sem defeitos visuais identificados. Os outros dois ainda apresentam por alguns frames uma emenda ligada ao sistema de tiles usado na renderização.
Menus, vídeos, seleção de personagens e lutas em Arcade, Versus, Challenge e Training já funcionam. O renderer também apresenta personagens animados, sombras, bloom, motion blur e HUD completo. Portanto, o projeto passou da fase de apenas inicializar o executável e já demonstra uma parcela ampla da experiência real.
Comparação técnica do renderer no Windows durante o desenvolvimento, incluindo o caminho nativo Vulkan e a referência gráfica do Xbox 360. Imagem: BelmanteGu / projeto oficial.
Android tem controles touchscreen e suporte a gamepad
No celular, o projeto utiliza um aplicativo SDL3 com launcher próprio. A interface permite importar os arquivos do jogo, iniciar a execução e configurar o renderer. Os controles na tela oferecem seis botões de ataque, enquanto controles físicos também são aceitos.
Esse ponto aproxima o projeto de um port móvel de fato, em vez de uma simples demonstração técnica compilada para ARM64. O desenvolvedor também criou opções para opacidade e tamanho dos controles touchscreen, além de funções para backup e restauração dos saves.
O trabalho amplia uma tendência recente de ports nativos para smartphones. No Allves Games, também mostramos o Resident Evil 4 recompilado para Android, embora aquele projeto parta da versão de GameCube e use uma infraestrutura diferente.
Ainda não existe APK público do port
Apesar de o repositório documentar a primeira APK funcionando no Galaxy S23, o próprio desenvolvedor esclareceu em 28 de setembro que ainda não publicou esse arquivo para download. A intenção é liberar uma versão quando o port estiver mais testado e otimizado.
Além disso, a build pessoal precisa dos arquivos de uma cópia legítima da versão de Xbox 360. O repositório não inclui código comercial, shaders convertidos nem assets do jogo. A documentação também alerta que uma APK gerada durante o processo pode carregar shaders derivados da cópia do usuário e, por isso, não deve ser redistribuída.
Essa limitação torna a situação diferente de uma release pública pronta para instalação. Atualmente, quem reproduz o projeto precisa preparar o ambiente de compilação e fornecer seus próprios dados do jogo. Portanto, não há App Store, Google Play, TestFlight ou pacote oficial de sideload disponível neste momento.
Por que o projeto é relevante
Ultra Street Fighter Android demonstra que a infraestrutura de recompilação usada em jogos de Xbox 360 está avançando também para títulos 3D e dispositivos móveis. O próprio autor afirma que criou o projeto para estudar e documentar como construir um renderer nativo reutilizável para jogos 3D do console.
O resultado atual ainda não equivale a uma versão final. No entanto, há um delta técnico concreto: o executável inteiro já foi recompilado, o renderer Vulkan desenha lutas completas, os 29 cenários passaram por testes automatizados e uma build ARM64 já roda a 60 FPS no Galaxy S23 usado pelo desenvolvedor.
Fontes: Ultra Street Fighter IV Recompiled — repositório oficial; documentação Android; galeria e testes dos 29 cenários; anúncio do desenvolvedor no r/decomps.